
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Parlamentares vão deixar o Senado, mas não a política

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Belo Monte derruba presidente do Ibama
O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Abelardo Bayma, pediu demissão do cargo por discordar da emissão da licença definitiva para a implantação da Usina Hidroelétrica de Belo Monte, prevista para ser construída no rio Xingu, no Pará. Em carta enviada à ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira, Abelardo alegou motivos pessoais para pedir exoneração do cargo. Mas revelou a amigos que deixou o posto depois de ter sido pressionado pela diretoria da Eletronorte a emitir a licença definitiva em nome do IBAMA para a instalação da usina. Ele estava no cargo desde abril do ano passado e é funcionário de carreira da autarquia.
Em reuniões com a diretoria da Eletronorte há dez dias, Abelardo se negou a emitir a licença definitiva para a construção da usina. Ele argumentou que o IBAMA não poderia emitir o documento porque o projeto ainda está cheio de pendências ambientais. Abelardo admitiu que o IBAMA poderia emitir a licença para a instalação e não a definitiva. A construção de Belo Monte foi um dos motivos que levou ao pedido de demissão da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva. Ela discordava da implantação da usina alegando que a obra causará fortes danos ambientais na região com o alagamento de uma área de aproximadamente 500 km2.
As divergências sobre Belo Monte provocaram um confronto no governo entre Marina Silva e a então ministra-chefe da Casa Civil, a presidenta Dilma Rousseff, que defende a antecipação dos prazos para a conclusão da usina, prevista inicialmente para outubro de 2015, um ano após o mandato presidencial. Para conseguir antecipar a conclusão, como quer Dilma, é preciso que o Ibama antecipe as licenças, mas o instituto alega que há falhas técnicas a serem reparadas no projeto. A previsão é que Belo Monte gere mais de 11 mil megawats para atender a uma população de 26 milhões de pessoas na região Norte.
FONTE: ÉPOCA
Marina critica omissão do Estado no combate aos estragos da chuva
Valor Online
SÃO PAULO - Fora do Senado desde o final ano passado, Marina Silva (PV-AC) criticou hoje, por meio de seu blog, o descaso e a omissão do Estado brasileiro no combate aos estragos provocados pelas chuvas. Segundo ela, 7,8 milhões de pessoas em 1.211 municípios foram atingidas em 2010. Os números do ano passado, acrescentou ela, revelam ainda 473 mortes e mais de 100 mil desabrigados.
"Tenho dito que os eventos são naturais, mas a exposição de pessoas, principalmente a população mais pobre, a esses eventos é fruto da omissão do Estado brasileiro. Sabemos que o aquecimento do clima provoca eventos extremos com mais intensidade e mais freqüência", disse Marina após ressaltar que, entre 2007 e 2009, a população afetada dobrou de 2,5 milhões, para 5,5 milhões.
Ela observou que o Plano Nacional sobre Mudança do Clima, lançado em 2008, registrou pequenos avanços, sobretudo porque dedica pouca atenção ao Mapa das Vulnerabilidades, que propõe a construção de obras preventivas, como "piscinões", e a proteção de encostas, além da remoção das casas em áreas de risco.
"A estruturação de um Sistema Nacional de Defesa Civil também é incipiente, sem uma carreira definida para seus agentes e com previsão da reativação do Fundo Nacional ainda pouco clara. Ainda estamos na situação de direcionar muito mais recursos para a recuperação de danos do que a prevenção", complementou.
No ano passado, segundo ela, foram destinados R$ 1,84 bilhões para tratar de ocorrências após os desastres ambientais e R$ 128 milhões para evitar que eles acontecessem. Marina acredita que frente aos primeiros sinais de agravamento da situação, a presidente Dilma Rousseff deveria convocar os ministros para articular ações que possam evitar as tragédias.
Apesar das críticas, a senadora disse que o país avançou na capacidade de previsão dos ciclos climáticos e elogiou a ideia do ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, de criar um centro de prevenção de catástrofes. "Nada mais oportuno, posto ser fundamental transformar as informações disponíveis em ações efetivas, em capacidade de organização para evitar que eventos naturais se transformem em tragédias para a vida de milhões de famílias a cada final e início de ano".
Depois de deixar o Senado no final do ano passado, Marina reassumiu a presidência do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). Especula-se a possibilidade de que ela pode se mudar para São Paulo, onde estaria em evidência para ter condições competitivas de disputar a Presidência da República, mais uma vez, em 2014.
(Fernando Taquari | Valor)
sábado, 8 de janeiro de 2011
À presidenta Dilma, meus votos de um bom governo
Por Equipe Marina
Hoje, data em que a primeira mulher assume a Presidência da República do Brasil, torço e peço a Deus para que nosso país possa ir bem nos próximos anos.
A presidenta, como ela gosta de ser chamada, Dilma Rousseff pode ter a certeza de que não farei parte do grupo do quanto pior melhor, da oposição pela oposição. Como disse em vários momentos ao longo da campanha eleitoral de 2010, vou exercer o espírito republicano que deve conduzir o discernimento daqueles que fazem política voltada para o interesse público, sobretudo no reconhecimento dos acertos, na crítica aos equívocos, para que sejam superados, e na disposição democrática de ouvir e buscar consensos amplos e abertos.
Dilma herda dos oito anos de governo Lula um Brasil que atingiu certa maturidade econômica, elevou seu prestígio e respeito na geopolítica internacional, tirou 28 milhões de pessoas da linha da miséria, permitiu que outras 36 milhões passassem a engrossar a classe média e reduziu o desmatamento da Amazônia em 75%.
Ainda assim, nossa presidenta terá de lidar com enormes carências que não foram enfrentadas com eficiência pela administração anterior do PT. A baixa qualidade do nosso sistema educacional persiste. O acesso ao saneamento básico, essencial para melhorar o padrão de saúde da população, está longe da universalização (apenas 40% do lares têm acesso à rede de esgoto). Os governos federal e estaduais não cumprem sua parte no financiamento da saúde pública, o que amplia o ônus para os municípios e, portanto, afeta o atendimento aos que dela necessitam. Os ruralistas agem no Congresso, com apoio de segmentos da base do governo, para reformular o Código Florestal e conter os avanços da legislação ambiental no país. O crack virou uma epidemia e coloca sob ameaça uma geração de jovens. A segurança pública em diversas das grandes cidades do país está sob constante ameaça, e a população sob intenso medo.
Isso sem contar os esquemas de corrupção que se alimentam do poder público, tentam dominá-lo para satisfazer seus interesses particulares e buscam restringir as ações daqueles que se opõem com firmeza aos desmandos e abusos.
É para a superação desse passivo social e político que eu espero ver ações contundentes do governo Dilma para fazer jus à confiança que a maioria dos brasileiros deposita em sua futura administração.
Pelo fato de ser mulher, espero também que nossa presidenta ponha a serviço da política aquilo que nos diferencia do jeito masculino de liderar – capacidade de escutar e de acolher, a busca do entendimento e do equilíbrio, a gestação do futuro.
O Brasil tem tudo para se tornar uma das grandes lideranças deste século, não na corrida insensata apenas pelo poder econômico, mas, sim, na construção de um planeta no qual a vida em todas as suas formas seja celebrada, que consiga fazer do grave estado de degradação a que chegou, o ponto de partida para um futuro no qual todas as pessoas e nosso ambiente natural sejam respeitados e tratados com dignidade. Compete à nova presidenta se engajar na realização desse desígnio e fazer a sua parte para assegurar o bem-estar à atual e às próximas gerações de brasileiros.
A hora do compromisso é agora. A Dilma Rousseff, meus votos de sucesso.
Marina Silva, 52, é senadora do Acre pelo PV, foi candidata do partido à Presidência da República nestas eleições e ministra do Meio Ambiente do governo Lula (2003-2008).
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Marina Silva: "O Brasil avançou muito, mas na política há um atraso sem tamanho"
Por Alexandra Lucas Coelho, em São PauloA gente extraía o látex de segunda a sexta. Sábado geralmente trabalhava na roça, [agricultura] de subsistência, e domingo a gente descansava, era dia de guarda. A minha avó era católica praticante e aprendi os rudimentos do cristianismo com ela. Então domingo era sagrado para nós. A borracha, a gente fazia durante um período, acumulava aquela produção, e vendia a cada 15 dias.É então que vem a ideia de ser freira?
Veio muito cedo, ainda criança. Quando a minha avó começou a me ensinar a fé, falava que padres e freiras eram pessoas que usavam hábito, moravam no convento, se dedicavam a fazer orações, a entender a palavra de Deus, não se casavam, e aquilo me encantava. Sempre tive uma fé fervorosa dentro de mim. Então comecei a falar que quando crescesse queria ser freira e a minha avó colocava uma objecção que acabou por ser uma coisa boa: dizia que freira não podia ser analfabeta. Quando cheguei no convento tinha algumas freiras velhinhas que eram analfabetas, mas ela dizia isso.
E isso incentivou-a a estudar.
Ficou na minha cabeça como um obstáculo a ser superado. E com certeza foi uma espécie de chama acesa que me conduziu à busca dos estudos.
Foi para a capital do Acre, trabalhou como empregada doméstica...
Isso. E comecei a estudar, em Setembro de 1975 num concurso de alfabetização de adultos.
Ainda com a ideia de ser freira?
Ainda. Quando cheguei fiz três movimentos. O primeiro foi procurar um médico porque estava com um problema de saúde. O segundo foi procurar a escola. E o terceiro foi procurar uma igreja próxima.
Tinha uma hepatite.
Uma hepatite grave que tinha sido maltratada e criou problemas crónicos muito graves.
Teve três hepatites, várias malárias...
Cinco malárias e três vezes hepatite. A primeira foi essa, que peguei em 74. Depois peguei outra em 79, e outra em 86. Malárias peguei cinco vezes quando morava na floresta.
São consequências de ter crescido onde cresceu, também.
É, também. Sempre que tinha uma alteração nos ecossistemas algo acontecia. E quando chegou a estrada, veio acompanhada de um surto de sarampo e malária. Foi nesse período que perdi as minhas duas irmãs mais novas, com sarampo e malária, e também peguei malária.
Como foi a sua saída da igreja católica e a aproximação à igreja actual?
Pertenço à Assembleia de Deus, um segmento evangélico, talvez o maior do Brasil.
Maior que a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus).
Sim, sim. Fui da igreja católica desde criança até quando me converti à fé cristã evangélica. Isso foi por volta de 1997, eu já estava no Senado. Ontem o bispo de Brasília esteve comigo e eu dizia para ele: é possível uma conversão dentro da conversão. Sempre me senti convertida à fé cristã e tive essa experiência de conversão dentro da minha própria conversão. Foi um processo tranquilo, que graças a Deus foi muito bem compreendido pelos meus amigos na Igreja Católica, padres, bispos, todos me respeitam, e eu os respeito também.
Mas havia um desencanto?
Quando você se apaixona por uma pessoa não é porque você se desencanta com outra. Você não tem o controle sobre isso.
Não foi uma insatisfação com a Igreja Católica?
Não. Eu tinha excelente relação com a Teologia da Libertação, de amizade, respeito, parceria. Hoje estou muito feliz com a minha fé, com os seus desafios, porque é um processo de aprofundamento da relação com Deus. Deus para mim é uma relação viva, e não significa que eu tenha de ter um olhar de negação das outras pessoas. Jesus não fazia isso, ele se dava a conhecer, e é isso que nos leva a uma experiência viva de fé, quando nos pomos na perspectiva de uma relação de respeito, olhando para o outro. O primeiro grande outro é Deus.
Sim, sim.Quem são os seus interlocutores, Leonardo Boff?
Leonardo Boff continua sendo uma pessoa muito importante para mim. Frei Betto é uma pessoa por quem tenho respeito muito grande.
Estamos a falar de apoiantes de Dilma.
No segundo turno apoiaram a Dilma. Isso aconteceu com vários que me apoiaram no primeiro turno. Cada um fez a sua escolha.
As pessoas não podem ser infantilizadas a ponto de serem direccionadas para esse ou aquele candidato, como uma manada. Dilma e Serra teriam de as conquistar. E eu dizia isso, que o voto não era meu, era do eleitor. E foi por isso que preferi ficar independente. Mas não neutra. Fiz inclusive uma carta aberta que encaminhei para os dois [candidatos]. É muito tentador ficar nesse lugar de conduzir as pessoas, para ter a ilusão de que foi você que proporcionou a vitória ou a derrota de alguém. Difícil é ajudar a construir uma escolha.
Liderar é a capacidade de fazer com que as pessoas possam livremente escolher aquilo que acham que é melhor para si mesmas, para a colectividade, para a humanidade.
A sua campanha fazia a ponte entre evangélicos, ambientalistas, esquerdistas, gente muito diferente. Define-se como de esquerda?
Venho de uma trajectória de esquerda e defino-me como uma pessoa que superou a ideia de que o supremo bem está na esquerda e o supremo mal está na direita.
A luta sócio-ambiental vai exigir a capacidade de lidar com os paradoxos. Se as pessoas continuarem separando a humanidade entre esquerda e direita vão perder a oportunidade de buscar uma integração baseada em valores duradouros, democracia, liberdade, justiça, amor, presentes em todas as culturas. É possível fazer alianças pontuais em cima de princípios duradouros. Você vai encontrar pessoas que podem dar uma grande contribuição numa determinada questão. Se vai para uma escola, quer ter um bom educador, e quem disse que um bom educador é só de esquerda ou de direita? A gente não precisa pensar tudo igual.
A questão do aborto tornou a eleição muito tensa na segunda volta. Quer esclarecer a sua posição em relação à criminalização das mulheres?
Acho que podemos trabalhar com a perspectiva de que nenhuma mulher deseja o aborto. Entre criminalizar e descriminalizar, o que se pode fazer para evitar? Que as pessoas possam ter melhor planeamento familiar, que as adolescentes possam ser melhor assistidas.
Defender a vida é um princípio, mesmo que não tivesse fé defenderia isso. Então, quero favorecer a vida, e que a gente se responsabilize por ela, saber quais são as informações que precisamos trazer para esse debate, e não a satanização de quem é a favor e contra. Me recuso a esse debate. Quem é a favor já está satanizado por um grupo, quem é contra já está satanizado por outro grupo porque é considerado conservador.
É preciso que se faça um encontro, olhando para as informações, para os problemas reais, para que a gente possa ter uma discussão. A vida só acontece pelos sucessivos renascimentos, a única coisa constante é a morte. Então é esse compromisso radical com a vida que tem de estar presente em tudo o que fazemos. E quanto mais pudermos agir no sentido de protegê-la, melhor para todos.
As mulheres devem ser acolhidas. Boa parte das mulheres que praticam aborto são tomadas por um imenso sentimento de culpa. Com certeza não é a cadeia, a punição que as vai ajudar. Elas precisam de acolhimento.
A gente não pode é justificar o tempo todo que isso se repita. Não pode justificar a violência porque tem pobreza. Não pode justificar o aborto em si mesmo por causa do ambiente desfavorável para as mulheres. Quantas mulheres não gostariam de ter o seu filho, e abortam porque não têm atendimento de saúde, porque uma mulher pobre não pode ficar seis meses em repouso? Quantas amigas minhas tiveram um filho porque tinham condições de seguir as orientações do médico? A maior parte dos abortos não é desejada, as mulheres abortam mesmo querendo ter o seu filho.E a sua visão do casamento homossexual?
Pelas minhas objecções de consciência não sou favorável. Mas direitos civis, sim. A comunidade gay tem direito ao seu plano de saúde conjunto, à herança, porque tiveram o património de uma vida juntos. Aqui no Brasil, quando um dos cônjuges passa num concurso e vai para outro estado, ele tem direito de acompanhar a pessoa. Com a comunidade gay isso não acontece e eu defendo que eles tenham esse direito também. Quanto ao casamento, para mim é algo que acontece entre um homem e uma mulher.
Entre os seus apoiantes há com certeza gente que defende o casamento homossexual. Não é complicado articular isso?
É complicado, mas havia que ser transparente e não fazer um discurso de conveniência. Tenho amigos que defendem a ideia do casamento, e não tenho nenhum impedimento em conviver com eles e apoiá-los em tantas coisas. Mas eu tinha de dizer claramente o que pensava para que as pessoas pudessem escolher livremente se queriam votar em mim. E a boa surpresa é que isso não foi impedimento para que pudessem se engajar na plataforma.
No começo houve uma exacerbação caluniosa em relação à campanha, mas talvez a forma respeitosa com que sempre me dirigi, sem agir com artimanhas, acabou fazendo com que tivéssemos um ponto de equilíbrio.
Reunir diferentes é difícil mesmo, mas quem foi que disse que para estar junto a gente precisa pensar igual? Tem uma série de coisas que apoio noutros candidatos.
Foi mais de cinco anos ministra de Lula. E quando saiu disse que era contra o crescimento material a qualquer custo. Como são hoje as suas relações com o Partido dos Trabalhadores (PT)? Estaria completamente fora de causa um regresso ao PT?
Hoje, talvez seja os PTs...
Há vários, e ainda há o Lulismo?
E ainda há o Lulismo. A minha relação com o PT são as pessoas que sempre acompanharam o meu trabalho, que aprenderam a me conhecer e a me respeitar. Tenho excelente relação com [o senador Eduardo] Suplicy, com o Tarso Genro [ex-ministro de Lula, actual governador do Rio Grande do Sul], uma boa relação com o ministro Luiz Lúcio, com [o ex-ministro] Patrus Ananias, para citar alguns.
E a sua visão do Lulismo? É melhor que o PT?
Não quero ir por esse caminho. As pessoas precisam se envolver com ideais. As lideranças carismáticas têm de fazer um esforço grande para administrar o carisma, e uma das formas é trabalhar para que as pessoas sejam suas interlocutoras, e não apenas suas seguidoras. Colocar-se no lugar de ser seguido, nesse lugar de Messias, é algo muito perigoso para você mesmo e para as pessoas. O espaço da interlocução é aquele em que você escuta e é escutado, vê e é visto.
A minha relação com o Presidente Lula sempre foi essa. Sempre quis interagir. E durante um tempo foi possível essa interacção dentro do governo. Permaneci e agradeço imensamente a oportunidade que tive. Quando vi que essa escuta estava sendo prejudicada pedi para sair. E talvez sair seja a forma de manter a interlocução.
A contribuição do Presidente Lula não será medida apenas por esses oito anos. É uma contribuição dos últimos 30 anos. O que ele fez para construir um partido, para ajudar a construir cidadania política para milhões de excluídos, não só dos bens materiais, mas da política, da capacidade de agir, de decidir um processo político, foi muito grande. E no governo há grandes contribuições inegáveis. A maior delas na área social.
O problema é que a gente não pode, em nome das árvores já plantadas, não olhar para as sementes.
O PT e o Presidente Lula não viram as sementes brotando no nosso quintal, as bandeiras do século XXI, ficaram extasiados com a copa das árvores. E a gente precisava adubar as novas sementes, que são a luta por um modelo de desenvolvimento capaz de fazer o encontro entre economia e ecologia. A visão velha do desenvolvimento pelo desenvolvimento coloca em oposição economia e ecologia. Daqui para a frente terá de ser um encontro, e acho que foi isso que eles não foram capazes de ver. Dilma deu alguns sinais positivos nesse sentido?
Ainda não. Mas não acredito nos processos petrificados. Porque ainda há pouco tempo quem diria que o Brasil mudaria a sua política quanto a florestas, a metas e até a uma política proactiva na questão climática?
A sociedade brasileira está à frente das lideranças políticas há muito tempo, elas é que ainda não descobriram isso. As metas que o Brasil assumiu são fruto de um pensamento da academia, das ONG, dos media, do processo político. Há uma demanda muito grande por uma nova postura. O Brasil é o país que pode, a partir da economia de alto carbono, criar a economia de baixo carbono. Temos uma base de recursos naturais que permite diversificar a matriz energética, e isso poucos países têm.
A senhora tem sangue negro...
Sim.
Assistimos na campanha a duas mulheres candidatas, e agora o Brasil vai ter a sua primeira mulher Presidente. A raça é uma outra barreira que falta ultrapassar?
Temos desigualdades sociais muito grandes. E a maior é entre a população negra. A maior parte dos jovens pobres são negros. Desempregados são negros. A gente nas favelas é negra. Assassinados são negros. Presos são negros. É preciso criar uma educação que gere igualdade de oportunidade. Hoje temos o Bolsa Família, mas o ideal é que a gente transite para uma inclusão produtiva. E isso é algo que tem de acontecer para todos os segmentos. Por isso defendo as quotas. Não indefinidamente, mas como forma de criar uma base mínima de igualdade a partir da qual as pessoas possam se movimentar. Não se pode tratar os diferentes como se fossem iguais. A forma mais disfarçada de manter a desigualdade é tratar os desiguais como se fossem iguais.
Ainda há racismo no Brasil?
Há sim, preconceito. Mas não se pode combater o preconceito contra os negros criando preconceito contra os brancos. Não se pode dar pertencimento aos negros apartando-os dos brancos. A gente é uma cultura diversificada, integrada, e essa é a nossa melhor riqueza. Uma integração sem eliminação das diferenças, imagéticas, estéticas. Sem predefinir que para ser negro eu tenho de me vestir assim. Se os brancos quiserem se vestir e ser como negros, óptimo. Não pode é não ter direito a escolha.
Trabalhar por uma terceira via. O Brasil fica o tempo todo na polarização, historicamente é assim, e só estará maduro quando puder optar por um terceiro. Quando se tem de optar entre A e B não há liberdade de escolha.
E a escolha nem sempre está dada à partida. Posso construir o que estou escolhendo. Se escolho ser médica, vou ter de trabalhar para isso. Esses 20 milhões são um alicerce muito forte. Dependerá de uma nova visão política, de um processo aberto, democrático, não-exclusivamente partidário, oxigenado pelas forças vivas da sociedade, sem querer hegemonizá-las, colocando-se no lugar de parceiro.
Pressupõe democracia, convivência com a diferença, troca. E isso em política muitas vezes se perde, porque os processos são de eliminação do outro. Mas não há como afirmar absolutamente nada se não tenho um outro nas relações humanas, para ser inclusive um espelho do que sou e não sou, do que quero e não quero. Que plataforma terá? Dentro do Partido Verde (PV) pelo qual concorreu às eleições, de um partido novo, de um instituto?
Dentro e fora. É dentro do PV em parte. É nos movimentos sociais, como o Movimento Brasil Sustentável, e em novos horizontes.
Quantas boas esperanças não precisam se encontrar, e com quantas eu gostaria de me encontrar? Quantas experiências em empresas, na academia, em comunidades, mesmo em segmentos do governo, não estão acontecendo, e as pessoas achando que são apenas um?
Então quero participar disso, foi assim que sempre trabalhei. Nunca fui exclusivamente do PT, do governo nem do Senado. Não vou estar exclusivamente numa instituição e num partido, quero ter a possibilidade de me encontrar com a realidade real.
Por enquanto faço parte do Instituto de Democracia e Sustentabilidade. E estou trabalhando para a criação do Instituto Marina Silva, pensando o legado desses mais de 20 anos de vida pública, desde deputada ao Senado.
Está fora de causa a fundação de um partido?
Não tenho trabalhado com essa possibilidade. Entrei no PV acreditando no que tinham prometido, uma revisão programática para integrar a sustentabilidade, a mudança de modelo de desenvolvimento, e uma reestruturação do partido na perspectiva da democratização. Não dá para criar uma nova política se não criarmos novos processos. É uma descoberta que quero fazer com o partido, e que espero que ele possa fazer comigo.
O esforço maior talvez seja do próprio PV, de se actualizar, de se abrir para uma interacção com segmentos que historicamente não querem participar de partidos, mas não são avessos a manter esse laço.
O poder é um instrumento para, não um fim em si.
Marina faz votos de bom governo a Dilma no Twitter

Dilma Rousseff recebeu votos de bom governo de Marina Silva
Foto: Reuters
A senadora do Acre Marina Silva, que foi candidata pelo PV nas eleições presidenciais de 2010, desejou um bom governo para a petista Dilma Rousseff. A presidente eleita toma posse do cargo mais alto da República na tarde deste sábado.
"À presidenta (como ela gosta de ser chamada) Dilma Rousseff, meus votos de um bom governo", escreveu a ex-candidata verde, em sua conta na rede social do Twitter.
A ex-candidata verde ficou em terceiro lugar na corrida pelo cargo de presidente no ano passado, alcançando cerca de 19% dos votos válidos do eleitorado brasileiro, o que ajudou a garantir um segundo turno na disputa entre a então candidata petista Dilma e o ex-candidato tucano, José Serra.
Com a derrota nas eleições presidenciais, Marina deixará o Senado Federal após oito anos de mandato. A posse dos novos parlamentares no Congresso está prevista para fevereiro.
- Redação Terra
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Marina Silva: votar Código Florestal seria 'esquizofrenia'
- CLAUDIA ANDRADE
- Direto de Cancún
A ex-ministra do Meio Ambiente e senadora pelo Acre Marina Silva afirmou nesta terça-feira (7) que votar o Código Florestal na Câmara dos Deputados esta semana seria "esquizofrenia". "Isso faria um estrago muito forte para o governo e o Congresso. Seria uma esquizofrenia, porque mostraria que enquanto o Brasil está avançando para fora há um movimento refratário para dentro".
A senadora conversou com os jornalistas durante a 16ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-16), em Cancún, no México. E comentou uma movimentação que estaria ocorrendo no Congresso Nacional para apresentação de um pedido de urgência para votação do projeto pelos deputados.
Questionada sobre o que incentivaria essa movimentação exatamente quando as atenções do mundo estão voltadas às questões ambientais, por conta da COP-16, a senadora afirmou que pode ser uma tentativa de aproveitar o "fator surpresa". "Teria o efeito de dizer: 'olha, o que vale aqui (no Congresso) não é o que vocês estão gritando lá'."
Marina Silva disse que o processo eleitoral deste ano - do qual ela fez parte abocanhando uma fatia significativa dos votos no primeiro turno - "ecoou positivamente para o Brasil" internacionalmente.
Na avaliação da ex-ministra, o País teria se descolado do grupo de nações em desenvolvimento que é visto como atrasado nas ações de redução de emissões de gases de efeito estufa. "A química agora é diferente e isso não está relacionado a uma pessoa, mas a todo um processo."
A preocupação com a votação do código está ligada a um possível retrocesso nesse sentido. "É preciso uma operação para que a base do governo não ponha em votação. Porque isso iria comprometer as metas (de redução de emissões) do Brasil. Seria como dizer que elas são aprovadas, mas não cumpridas".
A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, também comentou a discussão do Código Florestal no Congresso e posicionou-se contra a votação. "Acho que é inadequado. A proposta ainda não está madura, a sociedade ainda quer discutir. Estamos trabalhando na direção de negociar, de aprimorar e permitir a votação de um texto que seja recepcionado por todos os brasileiros".
- Redação Terra
'Brasil deve liderar pelo exemplo', diz Marina Silva sobre luta contra aquecimento global
sábado, 4 de dezembro de 2010
As Sutilezas do Primeiro Turno
Levi Machado de Oliveira
Faltando pouco mais de uma semana para o primeiro turno, dava-se como resolvida a eleição presidencial. A rigor mesmo, nem a oposição acreditava numa segunda etapa. Então aconteceu a ascensão da candidatura Marina Silva, e deu no que deu. Muitas perguntas sobre que fatores determinaram o segundo turno podem ser feitas. As respostas serão variadas, conforme o interlocutor. Poucas hão de tocar no tema fundamental. Os atores principais da contenda eleitoral, por razões óbvias, preferem não comentar. Dirão alguns que o esforço de setores poderosos da mídia com foco numa alegada violação de sigilo fiscal de parentes do candidato tucano serviu para estancar a queda deste e para frear o crescimento da adversária. Outros, que maior impacto teve o viés religioso dado a temas como descriminalização do aborto e união civil homossexual, para expor uma suposta diferença de opinião entre os dois. Uma terceira corrente, majoritária ao que parece, atribuirá o fato às denúncias que abateram a ministra Erenice, da Casa Civil. Usados pelo oponente principal ou manipulados em seu favor, sempre de forma muito bem dissimulada, esses expedientes, e outros que permearam o submundo da internet e o sermão de padres e pastores amestrados, influenciaram sim, de algum modo, o andamento da campanha eleitoral. Parece certo, no entanto, que à exceção do episódio envolvendo a Casa Civil, nenhum dos demais impactou de verdade a campanha de Dilma Rousseff. E é provável que o objetivo central do esforço insidioso montado em torno desses assuntos tenha sido o de desviar a campanha do eixo fundamental imposto pela situação, com efeito baseado na comparação entre o atual governo e aquele que o precedeu. Não sendo possível contestar as melhorias e avanços na área social – a mais sensível eleitoralmente – nem associar-se a eles, como a princípio se tentou, era preciso oferecer algo mais que causasse a impressão de uma possível continuidade com vantagens adicionais. Para que isso fosse assimilável, era preciso afetar a credibilidade e a imagem da candidata, sem agressões ao seu maior cabo eleitoral – o presidente Lula, condutor de um governo com índices de aprovação nunca vistos na história do Brasil. Restou ao candidato do patriarcado paulista a alternativa de desvincular o Presidente da candidata de sua escolha. Para que ela parecesse incapaz e incapacitada para a condução de um governo de continuidade. Esperava-se a princípio, e isso era largamente difundido, que a candidatura de Dilma Rousseff viesse a naufragar com a comparação de currículos, experiências e trajetórias eleitorais. Não deu certo. Não colou. A mulher surpreendeu. Sua campanha foi melhor que a do principal oponente, nos programas eleitorais e nos debates. Por algum tempo, o tucanato chegou mesmo a ficar desnorteado. Voltou a ganhar fôlego com a estratégia do ódio e do preconceito, traduzida em ataques à honra e dignidade pessoais da candidata lulista. A campanha suja a princípio deu o resultado esperado. Permitiu a preparação do terreno para propostas inusitadas, nunca antes presentes no receituário neoliberal de tucanos e demos. Em outro contexto, no percurso de uma campanha normal, eles mesmos denunciariam, como puro e simples desatino, promessas como aumento do salário mínimo para 600 reais, de 10% para aposentadorias e de 13º salário para a bolsa família. Diriam que nunca antes alguém se atrevera a tanto. Ao mais absoluto e descarado desafio aos fundamentos da lei de responsabilidade fiscal. Na falta de reação dos setores interessados – organizações empresariais, prefeitos e governadores –, talvez até pela certeza de que não passavam de pura e barata demagogia, essas promessas acabaram por mexer com o seguimento social a que estavam, de fato, destinadas. Muitos eleitores de baixa renda e aposentados, embora amplamente favorecidos no governo Lula, passaram a acreditar nas mensagens populistas do candidato tucano. Que não esperava, por certo, a reação silenciosa de setores da classe média. Nesse ambiente ocorreu um movimento reverso. Eleitores afortunados, ideologicamente mais simpáticos ao discurso oposicionista, percebendo o engodo, a irracionalidade das promessas serristas, resolveram dar tempo ao tempo, transferindo o voto para Marina Silva.
Levi Machado de Oliveira é advogado.